Ex-governador critica Parceria Público-Privada com empresa espanhola; governo defende legalidade e investimentos. Repercussão esquenta cenário eleitoral na Paraíba.
No campo da oposição institucional da Paraíba, coube ao ex-governador Ricardo Coutinho (PT), pré-candidato à Câmara dos Deputados, ditar o tom no ataque ao governo de Lucas Ribeiro (PP) por ter firmado uma Parceria Público-Privada (PPP) entre a Cagepa e a empresa espanhola Acciona para a exploração do sistema de saneamento em 85 cidades do Estado, incluindo possíveis impactos para a região de Salgado de São Félix. Segundo informações do Portal Nonato Guedes, adaptadas pela Rádio Salgado FM, Coutinho considera a medida uma “entrega gradual” de patrimônio público a segmentos privados do exterior, priorizando a lógica do lucro em detrimento do direito do consumidor a serviços essenciais.
O governador Lucas Ribeiro e a direção da Cagepa asseguram a legalidade da operação, explicando que a PPP foi necessária para modernizar o sistema e ofertar serviços de excelência, desmentindo que tenha ocorrido privatização da empresa estadual. Mesmo assim, Ricardo e outros opositores transformaram o caso em “cavalo de batalha” com exploração eleitoreira, assumindo a bandeira que buscavam para se contrapor à imagem positiva deixada pela administração de João Azevêdo (PSB), sucedido por Lucas.
A ofensiva dos adversários do governo crava um divisor de águas no cenário político-eleitoral que até então vinha se arrastando como preliminar para a campanha acirrada e o confronto nas urnas em outubro. A oposição estava sem discurso, desarticulada e sem uma estratégia homogênea para enfrentar o esquema oficial e o que o senador Efraim Filho, pré-candidato ao governo pelo PL, chama de “república de contracheques”. Efraim e o ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB), não haviam logrado avançar na formulação de propostas novas para sensibilizar o eleitorado nem identificado pontos vulneráveis do governo em que pudessem se agarrar como mastro da renovação. O caso do leilão da Cagepa caíra, então, como uma “luva”, unindo os dois adversários de Lucas e figuras que a eles não se misturam, como Ricardo Coutinho.
O ex-governador é um político “sui generis” na configuração do cenário paraibano, que atua em carreira solo dentro do Partido dos Trabalhadores e na contramão das decisões da legenda, sem que seja punido ou importunado nessa ousadia. Reabilitado politicamente depois de duas derrotas consecutivas, à prefeitura da Capital e ao Senado, e após um vendaval de denúncias contra sua gestão remanescentes da “Operação Calvário”, desponta com chances de conquistar uma cadeira na Câmara Federal, bafejado pela repercussão de obras que implementou e pela competência na gestão propriamente dita, abstraídos os pontos fora da curva, como a terceirização à Cruz Vermelha dos serviços do Hospital de Trauma e Emergência de João Pessoa, em rumoroso escândalo que já entrou no esquecimento de grande parte dos eleitores. Ricardo é respeitado pelo presidente Lula e por dirigentes petistas e goza de imunidade para criticar o apoio do PT local à pré-candidatura de Lucas Ribeiro, defendendo, inclusive, candidatura própria do seu partido, apesar da raquítica estrutura atestada pelo controle de apenas uma prefeitura no universo de 223 municípios.
Enfim, trata-se de um quadro de valor, pela sua capacidade intelectual, liderança política e marcos como administrador em segmentos pontuais, nas duas vezes em que geriu os destinos da Paraíba e em outras duas vezes como prefeito da Capital. Tem habilidade estratégica, que não se confunde com infalibilidade, facilidade de exposição dos variados temas da conjuntura nacional e da situação estadual e conserva um certo carisma junto a extratos médios do eleitorado, aqueles que possuem uma consciência crítica mais apurada do ponto de vista político e ideológico. Quando governador, Coutinho fugiu à tentação de privatizar estatais ou fazer concessões em setores essenciais, por entender que o histórico desse modelo é marcado pelo aumento nas tarifas e pela precarização dos serviços, além da perda do controle público sobre serviços vitais.
Além de Ricardo, manifestaram-se contra o fechamento da PPP os senadores Veneziano Vital do Rêgo e Efraim Filho, o primeiro tratando como “preocupante” a forma com que o processo teria sido conduzido e alegando que a Cagepa é um ativo importante do Estado e não deveria ter serviços gerenciados por investidores estrangeiros, e o segundo queixando-se da pressa e da falta de transparência no negócio. “Sou contra esse modelo de decisões tomadas nos bastidores”, acrescentou Efraim, que tem o apoio do bolsonarismo. O presidente da Cagepa, Marcus Vinícius, deu sua palavra de que não houve privatização, situando que a empresa não foi vendida nem teve seu patrimônio colocado em risco. O governador Lucas, ignorando a gritaria da oposição, comemorou o acerto, lembrando que foi feita parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e que o contrato prevê investimentos de cerca de R$ 3 bilhões ao longo de 25 anos, com foco na ampliação da coleta e do tratamento de esgoto, modernização da infraestrutura existente e promoção da sustentabilidade ambiental dos sistemas hídricos.
Para os moradores de Salgado de São Félix e região, o desfecho dessa PPP pode impactar diretamente a qualidade do serviço de saneamento e as tarifas pagas. A Rádio Salgado FM acompanha de perto o desenrolar desse tema, que certamente ainda vai render muita polêmica com a proximidade da campanha eleitoral. A população deve ficar atenta aos desdobramentos e cobrar transparência dos gestores.
Fonte: Nonato Guedes, adaptado pela Rádio Salgado FM.
