A facção, descrita como uma ‘multinacional da cocaína’, expande sua influência por 30 países, desafia autoridades e adota táticas sofisticadas, incluindo recrutamento disfarçado de religioso e lavagem de dinheiro em diversos setores.
Uma reportagem investigativa do prestigiado jornal norte-americano The Wall Street Journal trouxe à tona uma análise alarmante sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC), comparando a facção criminosa brasileira à eficiência e organização de máfias italianas e à estrutura de uma multinacional. Publicada na segunda-feira, 20 de maio, a matéria descreve o PCC não apenas como uma força regional, mas como uma potência global da cocaína, redefinindo as rotas do tráfico internacional e estendendo seus tentáculos por múltiplos continentes.
De acordo com o jornal, o PCC emergiu como uma das maiores e mais complexas organizações criminosas do mundo. Sua atuação, que já era notória no Brasil, agora se manifesta na reformulação dos fluxos de cocaína da América do Sul para os principais portos europeus, além de avançar progressivamente em direção aos Estados Unidos. Esta expansão transnacional tem acendido alertas nas agências de segurança global.
A presença do PCC nos Estados Unidos é uma preocupação crescente. O The Wall Street Journal revelou que autoridades norte-americanas identificaram indivíduos ligados à facção em estados como Flórida, Nova York, Nova Jersey, Connecticut e Tennessee. Em Massachusetts, o gabinete do procurador federal chegou a anunciar acusações formais contra 18 cidadãos brasileiros que, segundo as investigações, possuíam fortes laços com a organização criminosa. Essa infiltração nos EUA sublinha a seriedade da ameaça que o grupo representa.
Com uma estimativa de 40 mil membros, o PCC é atualmente considerado o maior grupo criminoso das Américas. Sua influência se estende por aproximadamente 30 países, abrangendo todos os continentes, com a única exceção da Antártida. Essa capilaridade impressionante é um testemunho de sua capacidade de organização e adaptação, operando como uma verdadeira empresa do crime.
A gravidade da situação levou a debates dentro do governo norte-americano, em especial durante a gestão do então presidente Donald Trump, sobre a possibilidade de classificar o PCC como uma Organização Terrorista Estrangeira (FTO). No entanto, o governo brasileiro se manifestou contra essa medida, argumentando que tal classificação poderia ter implicações diplomáticas e estratégicas complexas. O jornal enfatiza que, independentemente da classificação, a facção opera com um “nível máximo de organização”, funcionando de maneira análoga a uma multinacional.
Um dos aspectos mais distintivos do PCC, conforme detalhado pelo The Wall Street Journal, é o seu perfil discreto e empresarial. Diferentemente de outras organizações que buscam notoriedade, os membros do PCC focam em acumular fortuna, mantendo-se longe dos holofotes. Novos integrantes são submetidos a um rigoroso código de conduta interno, e seus rituais de ingresso, em uma demonstração da modernização de suas táticas, são por vezes realizados por videoconferência.
A reportagem dedica um trecho à tática chocante de “Pastores do PCC”. Para expandir seu recrutamento, angariar recursos financeiros e estabelecer novas rotas para o tráfico, membros do PCC estariam se infiltrando em regiões remotas do Brasil, disfarçados de pastores religiosos. Aproveitando-se da vulnerabilidade social e da adesão à teologia da prosperidade em muitas comunidades evangélicas, a facção consegue avançar em áreas carentes, prometendo apoio e “bênçãos” que, na verdade, servem para mascarar suas operações ilícitas. Em 2023, por exemplo, o grupo foi acusado de criar pelo menos sete igrejas no Rio Grande do Norte com o propósito de lavar dinheiro proveniente do tráfico.
A estratégia de lavagem de dinheiro do PCC é multifacetada e engenhosa. Além das igrejas, a organização utiliza uma vasta gama de empreendimentos legítimos para “limpar” seus lucros ilícitos. Postos de gasolina, fundos imobiliários, motéis, concessionárias de veículos e empresas de construção civil são alguns dos setores onde a facção investe e opera, dificultando o rastreamento de suas movimentações financeiras pelas autoridades.
Para o recrutamento de novos membros, a facção não se restringe apenas ao disfarce religioso ou à expansão territorial. Detentos em presídios recebem promessas de apoio jurídico integral por parte de advogados ligados à facção, um grupo conhecido internamente como “brigada da gravata”. Essa rede de suporte legal garante lealdade e expande a influência do PCC dentro e fora dos muros prisionais. A expansão geográfica também ocorre com o recrutamento de pessoas fora das prisões, em países vizinhos como Colômbia, Peru e Bolívia, o que permitiu à facção avançar significativamente sua atuação em toda a região amazônica, uma área estratégica para o tráfico.
A reportagem do The Wall Street Journal ilustra o impacto dessa presença com o depoimento de Jeffersson Ribeiro, administrador de um pequeno hotel em Urucurituba, que relatou: “Estamos nas mãos dos traficantes agora”. Ele descreveu como grupos criminosos chegaram a criar times de futebol na região, uma tática para recrutar jovens e ampliar sua base de apoio e operação.
O PCC, segundo o jornal, transformou-se em uma “agência reguladora” e um verdadeiro “governo do mundo ilegal”, organizando minuciosamente o tráfico internacional. Bruno Manso, especialista no grupo e coautor do livro “A Guerra: A Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil”, citado na reportagem, destaca que “Nenhum integrante está acima das regras em uma facção que valoriza ‘igualdade’ e ‘união’, mas qualquer um pode prosperar desde que permaneça leal.” Essa estrutura interna coesa e hierárquica é fundamental para sua resiliência e expansão.
Além do domínio do tráfico de drogas, o PCC diversificou suas atividades criminosas para explorar outras fontes de receita ilícita. A organização está envolvida na mineração ilegal de ouro, extração de madeira predatória, tráfico de pessoas, pesca ilegal, caça predatória e até mesmo na escravização de comunidades indígenas. Essa amplitude de crimes ambientais e sociais demonstra a voracidade e a falta de escrúpulos do grupo.
A estrutura descentralizada, mas altamente organizada, é um dos fatores cruciais que permitiram a rápida expansão do PCC sem a necessidade de controle territorial direto e ostensivo em todas as suas áreas de atuação. Por esse mesmo motivo, a publicação do The Wall Street Journal conclui que a desarticulação e desmantelamento completo do grupo representam um desafio imenso para as autoridades globais, exigindo estratégias coordenadas e de longo prazo.
