Filhos, netos e sobrinhos de lideranças tradicionais dominam pré-candidaturas; sociólogo analisa permanência das oligarquias e os impactos para cidades como Salgado de São Félix

As eleições de 2026 na Paraíba já começaram a ser desenhadas, e os protagonistas carregam sobrenomes que ecoam há décadas na política estadual. De famílias como Lucena, Ribeiro, Motta, Cunha Lima e Vital do Rêgo, a disputa pelos principais cargos — governo do estado, Senado, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa — revela um padrão histórico: a perpetuação de grupos familiares nos centros de poder. Segundo informações da matéria original, adaptadas pela Rádio Salgado FM, o fenômeno não é novo, mas se renova a cada ciclo eleitoral.

O sociólogo Matheus Firmino, citado na reportagem, explica que a permanência dessas famílias está ligada à formação social brasileira, desde o período colonial, quando grandes proprietários de terra concentravam riqueza e influência. “Essas famílias precisam se manter na política para manter também a sua capacidade econômica”, afirmou. Na Paraíba, por ser um estado relativamente pequeno, a proximidade com prefeitos, vereadores e eleitores facilita a atuação desses grupos, que usam emendas parlamentares, instituições religiosas e redes históricas para preservar seu poder.

Entre os pré-candidatos listados, destacam-se: Cícero Lucena (MDB) e Mersinho Lucena (PSD), pai e filho, sobrinhos do ex-senador Humberto Lucena; Lucas Ribeiro (PP), vice-governador e filho da senadora Daniella Ribeiro, neto do ex-governador Enivaldo Ribeiro; Hugo Motta (Republicanos), presidente da Câmara dos Deputados, e sua irmã Olívia, pré-candidata a deputada estadual, filhos do prefeito de Patos Nabor Wanderley; Wilson Filho (Republicanos), secretário de Educação, filho do deputado federal Wilson Santiago; Efraim Filho (PL), senador e pré-candidato ao governo, filho do ex-senador Efraim Morais; Diogo Cunha Lima, pré-candidato a governador, filho de Cássio Cunha Lima e neto de Ronaldo Cunha Lima; Veneziano Vital do Rêgo (MDB), pré-candidato ao Senado, filho dos ex-deputados Antônio Vital do Rêgo e Nilda Gondim; Gervásio Maia (PSB), deputado federal, filho e neto de políticos; Ruy Carneiro (Podemos), sobrinho-neto de ex-senador; e Olímpio Rocha (PSOL), que, embora filho de ex-vereador, é o único que não integra uma oligarquia familiar tradicional.

Para os moradores de Salgado de São Félix e região, essa concentração política tem reflexos diretos. Cidades pequenas do interior paraibano, onde a economia depende fortemente do funcionalismo público e de serviços ligados à gestão municipal, criam uma relação de dependência entre eleitores e esses grupos familiares. “Quando duas famílias tradicionais disputam o poder em uma cidade durante décadas, elas concentram influência sobre a prefeitura, Câmara Municipal, secretarias”, destaca o sociólogo. O eleitor passa a associar determinados sobrenomes à capacidade de garantir empregos, facilitar acessos e resolver demandas cotidianas junto ao poder público.

A chamada herança política é outro mecanismo de perpetuação. Quando uma liderança envelhece ou fica impedida de disputar, um filho, esposa ou sobrinho assume o espaço. “Essas pessoas têm uma relação política muito mais vinculada ao nome da família do que a uma perspectiva ideológica”, afirma Firmino. O sobrenome funciona como capital eleitoral, muitas vezes superando a identidade partidária — os políticos migram entre legendas sem perder base de apoio.

Apesar do desgaste crescente da população em relação a essas famílias, evidenciado pelo aumento da abstenção e dos votos brancos e nulos, o sistema socioeconômico favorece a autoperpetuação. “É um jogo em que, por mais que haja descontentamento, o sistema oferece os mecanismos para a permanência dessas elites”, conclui Matheus Firmino. Em Salgado de São Félix e em todo o estado, a política segue sendo, em grande medida, uma questão de sobrenome.

Com as eleições de 2026 se aproximando, a Rádio Salgado FM continuará acompanhando como esses herdeiros políticos se posicionam e quais os impactos para a população local. A renovação política, embora desejada por muitos, ainda enfrenta barreiras estruturais que remontam ao coronelismo e à concentração de terra e poder no Brasil.

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