Em maio de 1940, o jornal A União noticiou o apoio do governo ao Círculo Operário Católico de João Pessoa para criação de escola noturna masculina; iniciativa refletia a doutrina social da Igreja e o contexto do Estado Novo.
Uma página pouco conhecida da história da educação e do movimento operário na Paraíba foi resgatada pelo jornal A União em sua edição de 12 de maio de 1940. Na capa, a notícia destacava o auxílio do governo estadual ao Círculo Operário Católico de João Pessoa para a criação da Escola Noturna Pio XI, voltada para trabalhadores que não tinham acesso ao ensino regular durante o dia. O fato, embora ocorrido na capital, insere-se num contexto mais amplo de mobilização social e religiosa que também ecoou em cidades do interior, como Salgado de São Félix, onde a presença da Igreja e de movimentos associativos sempre foi marcante.
A fundação do Círculo Operário Católico e de sua escola noturna não foi um acontecimento isolado. Ela se baseava em duas importantes encíclicas papais: a Rerum Novarum (1891), do papa Leão XIII, e a Quadragesimo Anno (1931), do papa Pio XI. A primeira reconhecia a gravidade da exploração do trabalho, defendia salário justo, proteção à família e direito de associação, mas recusava a solução socialista baseada na supressão da propriedade privada. Já a segunda, publicada 40 anos depois, reforçava a necessidade de uma ordem social cristã, com justiça, colaboração entre classes e organização profissional guiada pela moral religiosa.
No Brasil, os Círculos Operários Católicos tiveram grande expansão a partir da década de 1930. Em João Pessoa, o Círculo reunia cerca de 2.500 trabalhadores. A escola noturna Pio XI, destinada ao público masculino, foi uma resposta à demanda por instrução básica entre os operários, muitos dos quais analfabetos ou com pouca escolaridade. O governo do interventor Argemiro de Figueiredo, alinhado ao Estado Novo de Getúlio Vargas, viu nessa parceria uma forma de colaborar com experiências de atendimento aos trabalhadores fora dos esquemas políticos de esquerda, reforçando o discurso de ‘ordem e progresso’ do regime.
Na ocasião, o presidente do Círculo Operário pessoense, Severino Lopes, agradeceu o apoio governamental com as seguintes palavras, registradas no jornal A União: ‘Sendo o Círculo Operário escol da reeducação social, moral, intelectual, religiosa e cívica, ressentia-se imensamente dessa lacuna que o governo de Vossa Excelência, indo ao encontro dos ditames do Estado Novo’. A frase demonstra a visão de que a educação noturna era não só um direito, mas um instrumento de formação integral do trabalhador.
Em 29 de agosto de 1946, já em período democrático pós-Estado Novo, a escola noturna Pio XI continuava em funcionamento, agora nas dependências da Sociedade de São Vicente de Paulo, ligada à Igreja Católica. Naquela data, o Departamento de Educação do estado designou uma professora para lecionar no educandário, mostrando que a iniciativa se mantinha ativa mesmo após a mudança de regime político.
Para os moradores de Salgado de São Félix e região, conhecer essa história é entender como a Igreja e o Estado colaboraram para levar educação à classe trabalhadora em um período de profundas transformações sociais. Embora não haja registro específico de uma escola Pio XI em Salgado, o movimento dos Círculos Operários inspirou ações similares em várias cidades paraibanas. A memória dessas instituições reforça a importância da educação como ferramenta de ascensão social e valorização do trabalhador – um princípio que a Rádio Salgado FM defende ao resgatar e divulgar o patrimônio histórico regional.
A fonte desta matéria é o historiador Sérgio Botelho, em texto publicado originalmente no portal Polêmica Paraíba, adaptado e contextualizado pela equipe da Rádio Salgado FM. Acreditamos que revisitar esses acontecimentos ajuda a fortalecer a identidade cultural e a compreensão do passado que moldou o presente de nossa comunidade.
