Com técnicas que atravessam gerações e recorde de vendas no Salão do Artesanato, setor se consolida como fonte de renda e identidade cultural no estado

A produção artesanal tem se consolidado como uma importante fonte de renda, preservação cultural e incentivo ao empreendedorismo na Paraíba. Em diferentes regiões do estado, o trabalho manual de artesãos e artesãs movimenta a chamada economia criativa e mantém vivas tradições que atravessam gerações. Segundo informações do Portal Polêmica Paraíba, adaptadas pela Rádio Salgado FM, o setor abrange desde a Renda Renascença até brinquedos populares, crochê, macramê, cerâmica, esculturas de barro, madeira, couro e fibras naturais. Esses produtos não apenas representam a identidade cultural do estado, mas também são sustento para várias famílias que dependem diretamente da produção e comercialização dessas peças.

Um dos grandes exemplos da transmissão de saberes entre gerações está na cidade de Cabaceiras, especialmente no Distrito da Ribeira, polo do artesanato sertanejo onde o trabalho em couro é uma herança de mais de 100 anos, transmitida entre gerações. Essas regiões, marcadas pela produção artesanal, estão ligadas ao cotidiano e à história local, refletindo modos de vida e elementos da cultura popular nordestina e paraibana. O impacto econômico é expressivo: em janeiro deste ano, a 41ª edição do Salão do Artesanato Paraibano registrou recorde de vendas, com R$ 4.538.450,00 comercializados entre vendas diretas e encomendas. Em 2019, o valor foi de R$ 804.698,30, o que representa um crescimento superior a 460%. O número de artesãos participantes saltou de 200 para mais de 600.

O Salão do Artesanato Paraibano acontece duas vezes ao ano: em janeiro, em João Pessoa, e em junho, em Campina Grande, coincidindo com períodos de alta movimentação turística. Esses eventos, junto com feiras regionais e espaços como o Mercado de Artesanato Paraibano (MAP), em Tambaú, que reúne mais de 100 lojas, ampliam as oportunidades de negócios e aproximam produtores de compradores de diferentes partes do Brasil.

Além dos canais físicos, as redes sociais desempenham papel cada vez mais importante. Segundo dados da 13ª pesquisa de impacto da pandemia nos pequenos negócios, produzida pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), 84% dos artesãos empreendedores utilizaram redes sociais, aplicativos e internet como ferramenta de vendas em 2022. As plataformas mais usadas foram WhatsApp Business (83%), Instagram (67%) e Facebook (56%). A artesã Glaucia Bezerra, que produz copos americanos, canecas, moringas em vidro e pratos decorativos em cerâmica, destaca: “Comecei a perceber que poderia ganhar algum dinheiro com a minha arte a partir do momento em que posto nas redes sociais e as pessoas se interessam em comprar”. Ela utiliza tinta específica para vidro, pincéis e um forno caseiro, levando cerca de duas horas para pintar cada peça.

Apesar do crescimento, o setor enfrenta desafios. A concorrência com produtos industrializados, vendidos em larga escala e com preços mais baixos, coloca os pequenos produtores em desvantagem. A produção artesanal exige mais tempo e custo com materiais, dificultando a competição em preço e volume. Outro obstáculo é a precificação: muitos consumidores não reconhecem o valor agregado de peças feitas à mão. Glaucia enumera ainda o alto custo dos materiais, a dificuldade em encontrar insumos como tinta específica para vidro e o tempo necessário para cada peça. Ela ressalta que as feiras e salões continuam sendo importantes, mas o valor cobrado para participar de feiras particulares é alto, e conseguir classificação em salões oficiais é difícil devido à sua tipologia (vidro).

Especialistas apontam que muitos artesãos ainda têm limitações no uso de estratégias de marketing digital, branding e plataformas de vendas online. A instabilidade financeira provocada pela oscilação das vendas ao longo do ano e o acesso restrito a matérias-primas de qualidade também são desafios. Segundo estudos da UNESCO, a incorporação de práticas sustentáveis e técnicas ecológicas de produção é uma demanda crescente entre consumidores conscientes, mas ainda de difícil alcance para muitos pequenos produtores.

Na Paraíba, diversos polos e espaços valorizam o artesanato local. Entre eles, a Feira de Artesanato de Patos, que oferece peças em couro e madeira; as Louceiras de Cajazeiras, Patrimônio Cultural Imaterial, com artesanato em argila; a Feira de Artesanato e Renda Renascença no Cariri Paraibano, em cidades como Monteiro e Sumé; e o Celeiro Espaço Criativo, em João Pessoa. O Programa do Artesanato Paraibano (PAP) promove feiras regionais e edições especiais ao longo do ano, além de apoiar feiras colaborativas de mulheres artesãs, focadas na autonomia financeira feminina.

A produção artesanal na Paraíba não é apenas uma atividade econômica: é um elo entre passado e futuro, mantendo vivas técnicas centenárias e gerando oportunidades para milhares de famílias. Com o apoio de políticas públicas, eventos estruturados e a crescente presença digital, o setor tende a se fortalecer ainda mais, reafirmando a cultura nordestina como motor de desenvolvimento.

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