História da via que já foi palco de festas, indústrias e desfiles, e hoje enfrenta o esquecimento, segundo crônica de Sérgio Botelho
A evolução das cidades pode ser cruel com alguns logradouros, e João Pessoa tem exemplos marcantes dessa realidade. Um deles é a Rua da Areia, que um dia teve a honra de receber o imperador Dom Pedro II em seu desfile pela cidade, em 1859, e hoje jaz em relativo abandono. Segundo informações do portal Polêmica Paraíba, adaptadas pela Rádio Salgado FM, a via manteve seu nome afetivo popular, resistindo à tentativa de trocá-lo pelo título nobiliárquico de Barão da Passagem, mas não conseguiu preservar a relevância que já teve.
A Rua da Areia surgiu como solução urbana para reduzir o esforço na subida da cidade baixa para a alta. Seu nome vem da estrutura precária: quando chuvas castigavam João Pessoa, a terra descia a rua e se acumulava na parte baixa. Entre os séculos XIX e XX, a via passou da opulência à precariedade, e no século XXI ingressou despojada do brilho de outrora.
No passado, a Rua da Areia foi endereço de empreendimentos marcantes. Abrigou a fábrica de vinhos de caju Tito & Silva, as indústrias de bebidas gasosas de Sidney Dore, a icônica Água Rabelo, a Fábrica de Cigarros Popular e o escritório da Prensa de Abilio Dantas. A Casa do Estudante da Paraíba ainda hoje funciona lá. Além disso, a rua foi palco de sobrados, negociantes, senhores de engenho, consulado, festas de carnaval, cantadores ambulantes, boemia, ruínas e políticas de preservação.
A passagem do tempo é visível em cada esquina. A Rua da Areia não é apenas uma rua antiga; é um retrato pungente, em pedra, cal, areia, abandono e memória da cidade. O cronista Sérgio Botelho destaca que poucas vias em João Pessoa revelam tão claramente as transformações históricas.
Para os moradores de Salgado de São Félix e região, a história da Rua da Areia ressoa como um alerta sobre a importância de preservar o patrimônio urbano. Muitas cidades paraibanas têm logradouros que contam a trajetória local e merecem ser lembrados. A crônica nos convida a refletir sobre como o desenvolvimento pode, sem cuidado, apagar marcos afetivos e culturais.
A Rua da Areia é um convite à memória. Seus paralelepípedos já foram pisados por imperador, boêmios, operários e estudantes. Ainda guardam as marcas de um tempo em que a via pulsava economia e festa. Hoje, o abandono físico contrasta com a riqueza das histórias que ela carrega. Cabe à sociedade e ao poder público olhar para esses espaços com o respeito que merecem.
Fonte: Sérgio Botelho, via Polêmica Paraíba. Conteúdo adaptado para a Rádio Salgado FM.
