Valorização imobiliária e turismo pressionam preços; especialistas apontam fenômeno estrutural
O custo de morar de aluguel em João Pessoa tem se tornado um peso no bolso da população. Em meio à valorização imobiliária e o crescimento urbano da capital paraibana, encontrar um imóvel com preço acessível se tornou um desafio que impacta diretamente o orçamento das famílias. Embora os dados sejam da capital, moradores de Salgado de São Félix e região que dependem do mercado de locação em João Pessoa — seja para trabalho, estudo ou serviços — também sentem diretamente esses reajustes.
Dados do Índice Fipezap, adaptados pela Rádio Salgado FM, apontam que os preços dos aluguéis residenciais seguem em alta na cidade. Em março de 2026, o aumento foi de 1,31%, pouco menor que o de fevereiro (1,32%). No acumulado do ano, a alta chega a 3,87%, enquanto nos últimos 12 meses o avanço atinge 12,24%. Para o economista Alexandre Nascimento, esse movimento é estrutural: “A cidade entrou num ciclo de valorização de aluguel bem acima da inflação ao consumidor. Esse é um movimento acima do padrão histórico recente e já deve ser tratado como um fenômeno estrutural do mercado imobiliário de João Pessoa”, afirmou.
Esse cenário é mais evidente em bairros valorizados. Segundo os dados do Fipezap, o bairro Cabo Branco é o mais caro, com custo de R$ 58,4 por metro quadrado. Em seguida, vêm Jardim Oceania (R$ 56,3/m²), Miramar (R$ 55,1/m²), Bessa (R$ 52,9/m²), Manaíra (R$ 51,8/m²) e Altiplano Cabo Branco (R$ 50,5/m²). Apesar disso, o impacto não se restringe aos bairros nobres. À medida que os preços sobem nessas regiões, moradores passam a buscar alternativas em áreas mais acessíveis, ampliando a pressão sobre o mercado como um todo. O corretor de imóveis Ivan Correia observa: “É cada vez mais comum vermos clientes abrindo mão de localização para economizar. Muitos estão migrando de bairros nobres para regiões com melhor custo-benefício”.
Entre os fatores que explicam a alta, está a taxa básica de juros elevada. Com o crédito mais caro, a compra de imóveis se torna menos acessível, mantendo mais pessoas no mercado de locação. Proprietários e investidores repassam esse custo para o valor do aluguel. Além disso, a valorização de áreas específicas — especialmente na orla — atrai investidores que compram imóveis como fonte de renda. Segundo Ivan Correia, “localmente, João Pessoa vive um momento de crescimento urbano, aumento da procura e fortalecimento do turismo. No cenário nacional, fatores como taxa de juros elevada e restrição ao crédito empurram parte da população para o aluguel”.
O economista Alexandre acrescenta que a entrada de investidores com maior poder aquisitivo contribui para elevar os preços, pois muitos usam como referência valores praticados em outras cidades, inflacionando o mercado local. A mudança no perfil dos moradores também tem impacto: a cidade passou a atrair aposentados, profissionais de outros estados e trabalhadores remotos, interessados na qualidade de vida. Esse novo público amplia a demanda e pressiona os preços. A capital paraibana ganhou visibilidade nacional nos últimos anos, reforçando a valorização imobiliária. O crescimento populacional e a intensificação do turismo completam o quadro — com mais pessoas buscando moradia e uma demanda crescente por aluguel por temporada, há uma disputa direta pelo uso dos imóveis.
Segundo dados da Secretaria de Turismo de João Pessoa, em janeiro de 2026 foi projetado um impacto de R$ 623,7 milhões na economia local, com gasto médio de R$ 700 por turista ao dia. A hotelaria registrou ocupação de 100% no Réveillon e 90% em janeiro. “A cidade gera nos turistas um desejo de morar. Muitos vêm visitar e querem ficar. Isso valoriza áreas de praia e a cidade como um todo”, afirma Ivan. O avanço do turismo também provoca mudanças no uso dos imóveis: muitos proprietários optam pelo aluguel por temporada, mais rentável, reduzindo a oferta para locação tradicional e pressionando ainda mais os preços.
Outro fator que pesa no orçamento são as despesas associadas à moradia. Além do aluguel, encargos como condomínio e IPTU têm peso significativo. “Condomínio, IPTU e custos adicionais têm um peso relevante na decisão final do cliente”, diz Ivan. A taxa básica de juros também exerce influência direta. Mantida em patamar elevado para conter a inflação, encarece o crédito e dificulta o financiamento imobiliário. O economista Alexandre explica: “Nem todo mundo compra imóvel financiado, mas pesquisas indicam que praticamente 70% desse mercado roda através de financiamento. Quando você tem um encarecimento do crédito, as pessoas terão aquele imóvel de forma mais cara”.
O impacto se estende a toda a cadeia do setor imobiliário. Construtoras enfrentam custos mais altos para obter crédito, encarecendo o valor final dos imóveis. Investidores e proprietários, ao adquirirem imóveis com custos mais elevados, tendem a repassar esse aumento para o aluguel. Na prática, o cenário de juros altos contribui para manter os preços pressionados não apenas em João Pessoa, mas em todo o país. Para os moradores de Salgado de São Félix e cidades vizinhas que precisam se deslocar para a capital, a alta dos aluguéis representa mais um desafio financeiro. A tendência, segundo especialistas, é que enquanto não houver redução significativa dos juros e maior equilíbrio entre oferta e demanda, o custo da moradia continuará subindo.
